O transtorno de personalidade borderline (TPB) é uma condição mental que afeta profundamente como a pessoa lida com suas emoções, se comporta e percebe a si mesma.
Se você tem um diagnóstico de transtorno de personalidade borderline (TPB), provavelmente está familiarizado com a experiência de emoções intensas e instáveis, além da falta de estabilidade em seus relacionamentos e na maneira como se vê.
O TPB é uma das condições de saúde mental mais estigmatizadas, até mesmo entre alguns profissionais da área. Esse estigma vem de uma ideia histórica de que o transtorno seria intratável, mas hoje sabemos que essa visão está ultrapassada.
Embora ainda haja muito a ser compreendido sobre essa condição complexa, pesquisas recentes indicam que certas terapias, como a terapia comportamental dialética (DBT), podem ser eficazes na redução dos sintomas e na melhora da qualidade de vida dos pacientes.
O que é o transtorno de personalidade borderline?
O transtorno de personalidade borderline é uma condição psicológica complexa, geralmente associada a uma sensação constante de instabilidade. Essa instabilidade afeta diferentes áreas da vida, como os relacionamentos, as emoções e a forma como a pessoa se enxerga.
É comum que esse padrão venha de um medo intenso de ser abandonado, o que pode levar a comportamentos impulsivos ou reações emocionais intensas, mesmo diante de situações que não justificariam tal intensidade.
Esse transtorno faz parte de um grupo específico conhecido como grupo B dos transtornos de personalidade.
Os distúrbios dessa categoria costumam impactar profundamente as emoções e as relações interpessoais, gerando comportamentos considerados exagerados ou difíceis de entender por quem está de fora.
Além do transtorno de personalidade borderline, fazem parte desse grupo o transtorno de personalidade narcisista e o transtorno de personalidade antissocial.
Em pessoas com TPB, atitudes impulsivas são bastante frequentes. Muitas delas acabam se colocando em situações arriscadas ou prejudiciais, além de ser comum o relato de pensamentos suicidas e episódios de autolesão.
O tratamento tem como foco ajudar a pessoa a entender e controlar melhor suas emoções, reduzindo os episódios de sofrimento e promovendo mais equilíbrio no dia a dia.
Embora o transtorno não tenha cura definitiva, é possível alcançar um quadro de remissão. Isso significa que, com o tempo e o tratamento adequado, os sintomas diminuem de intensidade a ponto de não atenderem mais aos critérios usados para o diagnóstico.
Pesquisas apontam que mais de 90% das pessoas diagnosticadas podem atingir esse estágio ao longo de uma década.
No entanto, os próprios pesquisadores destacam que parte dessa remissão está associada ao afastamento das interações sociais, o que, de certa forma, reduz os gatilhos emocionais.
O diagnóstico do transtorno de personalidade borderline é feito com base nos critérios estabelecidos pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), publicação oficial da Associação Americana de Psiquiatria.
Em outros países, como no Brasil, também se utiliza a Classificação Internacional de Doenças (CID-10), da Organização Mundial da Saúde, que adota a nomenclatura “transtorno de personalidade emocionalmente instável”.
Quais são os sintomas do transtorno de personalidade borderline?
De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), existem nove sintomas principais associados ao transtorno de personalidade borderline.
Para receber o diagnóstico, é necessário apresentar pelo menos cinco desses critérios:
- Esforços intensos e muitas vezes desesperados para evitar o abandono, seja ele real ou apenas percebido;
- Relações interpessoais instáveis e intensas, marcadas por extremos de idealização e desvalorização da outra pessoa;
- Dificuldade com a própria identidade, como mudanças frequentes na autoimagem ou na percepção de quem se é;
- Comportamentos impulsivos em pelo menos duas áreas prejudiciais, como gastos excessivos, sexo sem proteção, uso de substâncias, direção imprudente ou compulsão alimentar;
- Pensamentos recorrentes sobre suicídio, comportamentos suicidas ou episódios de autolesão;
- Instabilidade emocional, com mudanças rápidas de humor, como tristeza intensa, irritabilidade ou ansiedade que duram algumas horas ou, em casos raros, mais de alguns dias;
- Sensação crônica de vazio;
- Raiva intensa ou dificuldade para controlar acessos de raiva;
- Pensamentos paranoides ligados ao estresse ou episódios de dissociação severa.
Por conta do medo de ser abandonada, a pessoa com transtorno de personalidade borderline pode interpretar situações de forma distorcida.
Um simples cancelamento de plano por parte de um amigo, por exemplo, pode ser sentido como rejeição, gerando sofrimento imediato e desproporcional.
Nesses momentos, é comum que a reação envolva raiva intensa ou sentimentos de culpa, mesmo quando não há motivo real para isso.
A pessoa pode se convencer de que está sendo deixada de lado porque é “ruim” ou “indigna”, o que alimenta ainda mais o ciclo de instabilidade emocional.
Esse transtorno geralmente é diagnosticado apenas em adultos, a partir dos 18 anos, mesmo que os sintomas possam aparecer antes disso. Isso acontece porque é necessário analisar padrões de comportamento ao longo do tempo.
No caso de adolescentes ou crianças, o diagnóstico só é feito se os sinais estiverem presentes por pelo menos um ano.
O que pode causar o transtorno de personalidade borderline?
Ainda não existe uma explicação única para o desenvolvimento do transtorno de personalidade borderline, mas pesquisadores acreditam que uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e ambientais está envolvida.
Ou seja, não há uma causa isolada, mas sim uma interação entre diferentes aspectos da vida da pessoa.
A maioria dos especialistas adota um modelo chamado biopsicossocial, que considera três grandes grupos de fatores:
- Fatores biológicos e genéticos;
- Aspectos sociais, culturais e ambientais, como a convivência com familiares, amigos e outras crianças durante a infância;
- Elementos psicológicos, incluindo a personalidade, o temperamento e a forma como a pessoa aprendeu a lidar com o estresse ao longo da vida.
Muitas pessoas diagnosticadas com o transtorno relatam ter passado por experiências traumáticas na infância. Isso pode incluir situações de abuso físico ou emocional, abandono, ou vivências marcadas por instabilidade familiar.
Também são comuns relatos de relacionamentos difíceis durante os primeiros anos de vida, como conflitos frequentes, sensação de invalidação ou ausência de vínculos afetivos seguros.
Além disso, há indícios de que o transtorno de personalidade borderline pode ter um componente hereditário.
Pessoas que têm parentes próximos com o diagnóstico, como pais ou irmãos, podem apresentar um risco mais elevado de desenvolver a condição.
Em resumo, não existe um único motivo que leve ao surgimento do TPB. O que os estudos mostram é que, geralmente, são vários fatores interligados que contribuem para o aparecimento dos sintomas.
Como é feito o tratamento para o transtorno de personalidade borderline?
O tratamento do transtorno de personalidade borderline costuma envolver acompanhamento psicológico de longo prazo com profissionais experientes nesse tipo específico de condição.
O principal objetivo é ajudar a pessoa a entender melhor suas emoções, melhorar os relacionamentos interpessoais e aprender formas mais saudáveis de lidar com o sofrimento emocional.
Psicoterapia
A psicoterapia é o método mais indicado e eficaz no tratamento do TPB. Existem diferentes abordagens terapêuticas que podem ser utilizadas, de acordo com o perfil e as necessidades de cada pessoa.
A terapia comportamental dialética (DBT) é considerada uma das opções mais eficazes e amplamente utilizadas.
Essa abordagem foca no desenvolvimento de habilidades como regulação emocional, consciência sobre si mesmo, controle de impulsos e melhora nas relações com outras pessoas.
Outra técnica bastante usada é a terapia baseada em mentalização (MBT), que ajuda o paciente a refletir sobre os próprios pensamentos e os pensamentos dos outros, promovendo maior compreensão emocional e empatia.
Outras abordagens que também podem ser úteis incluem a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e a terapia psicodinâmica, que exploram padrões de pensamento, crenças e experiências passadas para promover mudanças no comportamento.
Medicação
Não existe um remédio específico para o transtorno de personalidade borderline, mas alguns medicamentos podem ser prescritos para ajudar a controlar determinados sintomas.
Antidepressivos, estabilizadores de humor e, em alguns casos, antipsicóticos são usados para reduzir a ansiedade, impulsividade, alterações de humor ou episódios depressivos.
Internação hospitalar
Em situações de crise, quando há risco real de autolesão ou de comportamento suicida, a internação hospitalar pode ser necessária.
Nesses casos, a permanência no hospital costuma ser breve, apenas o suficiente para estabilizar a pessoa e garantir sua segurança até que ela possa retomar o tratamento ambulatorial com acompanhamento regular.
Prevenção do suicídio
Se você ou alguém próximo estiver passando por uma crise e pensando em suicídio, é fundamental buscar ajuda imediata. Não enfrente isso sozinho. Existem serviços especializados disponíveis para acolher e orientar:
- Você pode entrar em contato com o CVV (Centro de Valorização da Vida), pelo telefone 188 ou no site www.cvv.org.br.
Estratégias de autocuidado
Além da terapia profissional, algumas práticas podem ajudar a aliviar os sintomas no dia a dia. O uso de materiais de apoio, como livros e cadernos de exercícios com técnicas da DBT, pode ser uma ferramenta valiosa.
Atividades criativas, prática regular de exercícios físicos e hobbies que ajudam na expressão emocional também contribuem para o bem-estar.
Cuidar do corpo é tão importante quanto cuidar da mente. Manter uma alimentação equilibrada, ter uma boa rotina de sono e incluir momentos de lazer e descanso na rotina são atitudes simples que fazem diferença na qualidade de vida de quem vive com transtorno de personalidade borderline.
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